sábado, 26 de julho de 2008

Passeio por Brasília mostra espaços monumentais com vida própria




ROBERTO DE OLIVEIRA
da Revista da Folha

Ao subir a rampa do Congresso e ver as grandes cúpulas, Le Corbusier não se conteve: "Aqui há invenção". Charles-Edouard Jeanneret, nome de batismo, nasceu na Suíça e viveu a maior parte da vida na França. Mas se surpreendeu mesmo foi aqui, do outro lado do Atlântico. Para ser mais preciso, no coração do Brasil, em pleno Planalto Central, na então recém-inaugurada capital do país.

Um dos mais importantes arquitetos do século 20, Le Corbusier (1887-1965) foi um dos grandes inspiradores da obra de Oscar Niemeyer, responsável pelos famosos ângulos da arquitetura modernista de Brasília, que acaba de completar 48 anos.

Como o próprio arquiteto brasileiro mais prestigiado no mundo costuma dizer aos visitantes da capital federal, lá "vocês vão ver os palácios, podem deles gostar ou não, mas nunca dizer terem visto antes coisa parecida". Na autoridade de um mestre centenário, Niemeyer --quem há de negar-- tem razão.

A história do arquiteto pautou a viagem da editora de livros Mariko Tsuchiya, 30, que vive na região de Kanagawa (Japão) e veio ao Brasil pela primeira vez especialmente para conferir ao vivo "a obra de um dos maiores artistas do mundo".
Mariko arranha poucas palavras em inglês. Não fala português. E quase nada sabe sobre o Brasil. Mas quando o assunto é Niemeyer... Aí, vale tudo: mímica, misturar inglês com japonês, caras, bocas e olhares.

Antes de sair do Japão, ela preparou uma espécie de diário de viagem. Nele, uma minibiografia do arquiteto, algumas entrevistas e muuuitas fotos das grandes obras espalhadas pela capital federal -todo escrito em japonês, é claro.

A primeira parada da turista aconteceu na catedral de Brasília. Seus 16 pilares curvos que se unem em anel no topo recordam mãos em prece. Com a ajuda de uma intérprete, ela conta que ficou encantada com a incidência de luz pelos vitrais de Marianne Peretti. Budista, Mariko caiu de joelhos para os anjos suspensos de Alfredo Ceschiatti.

Inaugurada em 1970, a catedral metropolitana fascinou a japonesa também pela Via Sacra de Di Cavalcanti. "Mas aqui é quente demais, né?"

No lado de fora da catedral, a "headhunter" Minako Kishikawa, 30, amiga de Mariko, estava fascinada com a Esplanada dos Ministérios, encampada sob a perspectiva do céu de Brasília. Ela estava ansiosa para visitar o Palácio do Itamaraty.

Pela primeira vez em solo brasiliense, Minako sabe das coisas. O Itamaraty é sem dúvida uma das mais belas obras de Niemeyer. A sede do Ministério das Relações Exteriores abriga um importante acervo de arte.

Como disse certa vez o próprio criador, o Itamaraty serve de pausa para as pessoas se prepararem para compreender uma arquitetura mais criativa. A da catedral, por exemplo, concebida a partir da simbologia das pirâmides do Egito.

A japonesa preferiu fazer caminho inverso. Bem em frente ao Palácio do Itamaraty está a famosa escultura Meteoro, de Bruno Giorgi, sobre o espelho-d'água e jardins de Roberto Burle Marx, onde é possível avistar até garças. As visitas são monitoradas e, o que é melhor, gratuitas.

Traços do arquiteto

Brasília, num primeiro momento, pode parecer um lugar inóspito. Um "outro planeta", como definiu o astronauta russo Yuri Gagarin. O visitante demora um pouco para se encaixar nesse cenário, mas se locomover pela cidade é tarefa simples.

Ela resume-se basicamente ao Plano Piloto, traçado em forma de avião, que tem seu eixo central dedicado à vida pública com os edifícios dos ministérios, caixotes enfileirados e repetitivos. E às "asas", com residências e comércio, onde estão as superquadras, condomínios abertos, com prédios de três ou seis pavimentos e áreas de uso comum.

Uma das mais gostosas para passear fica nas redondezas da igreja Nossa Senhora de Fátima, a Igrejinha, primeira a ser construída em Brasília, a pedido da então primeira-dama Sarah Kubitschek. Pequenina, no formato de chapéu de freira, a obra de Niemeyer tem uma característica peculiar: os azulejos de Athos Bulcão, outro precioso quilate de Brasília.

À direita da igrejinha, os blocos residenciais da superquadra 308 Sul ainda preservam os traços originais dos projetos paisagísticos de Burle Marx (1909-1994). É um convite para se perder entre um edifício e outro e dedicar dois dedinhos de prosa com os receptivos moradores.

Nas vias principais, a ausência de esquinas e as avenidas sem fim dão uma impressão estranha. Com o tempo, porém, sob aquele céu que parece próximo ao chão, tudo se encaixa, assim como as formas de concreto desenhadas pelo arquiteto.

Até quem vem de fora se adapta com facilidade. Afinal de contas, Brasília é planejada, primeira cidade erguida no século 20 a ser declarada, em 1987, pela Unesco, patrimônio cultural da humanidade.

O banqueiro Júlio Fernandez, 57, e a mulher, a médica Ana Maria Isern, 57, vieram de Caracas (Venezuela) até Brasília de carro. "Em um dia, a gente já sabia circular tranqüilamente", diz ele. "Brasília é única."

Os venezuelanos começaram o passeio pela praça dos Três Poderes, síntese das idéias de Oscar Niemeyer e Lucio Costa (1902-1998), que abriga monumentos, museus e órgãos federais. Na praça central, a bandeira nacional com 286 m2, sustentada por mastro de 100 m, chamou a atenção do casal.

A praça é o ponto mais importante do turismo cívico. Abriga o Palácio do Planalto (sede da Presidência da República), o Congresso Nacional (Câmara e Senado) e o Supremo Tribunal Federal. Lá estão também o Museu da Cidade, o Panteão da Pátria e o Espaço Lucio Costa, onde há uma imensa maquete que dá a dimensão exata de Brasília.
Júlio e Ana aproveitaram para descarregar a memória da máquina fotográfica a 75 m de altitude, no alto do mirante da Torre de TV, que, apesar da aparência um pouco decadente das barracas de comércio lá embaixo, proporciona um visual deslumbrante.
O casal se deu conta de que também existe um lado de Brasília às margens do visitante: as chamadas regiões administrativas, que incluem as cidades-satélites, muitas delas com altíssimo índice de pobreza, longe dos cartões-postais e dos cuidados do Estado.

Símbolo comunista

Numa quadra tranqüila da Asa Sul, marido e mulher esqueceram do tempo no Santuário Dom Bosco, projeto do arquiteto Carlos Alberto Naves. O amplo interior é de um azul fulgurante durante o dia. Os compridos vitrais, entre as colunas de sustentação de inspiração gótica, filtram a luz do sol dando suavidade ao ambiente. À noite, o imenso lustre de 3,5 m de altura e 5 m de diâmetro é a única iluminação do santuário. Suspenso por seis cabos de aço, é formado por 7.400 pequenas peças de vidro de Murano, que juntas pesam aproximadamente 3.000 kg.

A igreja é uma homenagem a dom Bosco, santo italiano que fundou a Ordem dos Salesianos. Na manhã de 30 de agosto de 1883, Bosco acordou e correu para escrever um sonho. Nele, previa a criação de uma nova civilização, entre os paralelos 15 e 20, exatamente onde Brasília foi erguida.

Coube ao supersticioso Juscelino Kubitschek (1902-76) materializar tal sonho. A capital do Brasil nasceu de um monumental esforço de engenharia que consumiu 41 meses de labuta.

Por falar em JK, vale uma esticada ao seu memorial, que preserva objetos pessoais, documentos, cartas, livros, fotos e vídeos. Há também obras de arte de Cândido Portinari, Athos Bulcão e Marianne Peretti.

Inaugurado em 1981, a obra gerou polêmica: a foice que envolve a figura do ex-presidente foi motivo de crítica dos militares, que enxergaram nela o clássico símbolo comunista. Sob a ótica da ditadura, o braço direito estendido de JK representaria o martelo.

Palco de transformações e sucessivos escândalos políticos, Brasília preserva uma espécie de ilha da fantasia, bem pertinho do poder: o lago Paranoá, criado artificialmente para amenizar os efeitos da seca no Planalto Central.

Às margens do lago, saem passeios de barco. Gostoso é zarpar no finzinho da tarde para assistir ao pôr-do-sol passando por debaixo da ponte JK, aquela em que o desenho da curva é descrita como uma pedrinha atirada ao lago.

Logo uma outra obra de Niemeyer surge no meio de um belo jardim: o Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente, às margens do lago. Em Brasília é assim: Niemeyer, o arquiteto que criou um marco mundial da arquitetura moderna, surge até onde a vista alcança.

Roberto de Oliveira viajou a convite da Brasiliatur.

Saiba mais

Fundação

21 de abril de 1960 (Dia de Tiradentes)

Dica

Para mergulhar na alma da cidade planejada, saia do turismo cívico da Esplanada dos Ministérios e vá perambular pelas quadras das Asas Sul e Norte. Reserve ao menos quatro dias (nos fins de semana, os preços das diárias nos hotéis caem pela metade)

Quando ir

A melhor época é maio e junho, quando a temperatura fica agradável de dia (em torno de 25°C) e temperada à noite (10°C de madrugada). Chove entre novembro e março, mas a cidade se torna mais verde do que nunca. Já de agosto a outubro é o auge da seca.

Na bagagem

Não se esqueça: se for viajar entre maio e agosto, leve agasalho. Entre setembro e outubro, hidratantes e filtros solares. De novembro a março, inclua um guarda-chuva. Em qualquer época do ano, óculos de sol são fundamentais

Oriente-se

Brasília não tem quarteirões, mas superquadras, com códigos alfanuméricos, que indicam pontos cardeais, e os bairros, setores

Transporte

A melhor maneira de conhecer a cidade é de táxi, embora o Eixo Monumental deva ser percorrido a pé. Rosa Yida (tel. 0/xx/61/9972-3252 ou 0/xx/61/3340-2139) e Monica Taveira (0/xx/61/9987-5601) fazem trabalho de guia

Folha Online – Turismo – Passeio por Brasília mostra espaços...

http://www1.folha.uol.com.br/folha/turismo/noticias/ult338u417672.shtml

Nenhum comentário: